domingo, 30 de agosto de 2009

Belchior foi encontrado.

O meu lugar é onde você quer que ele seja não quero o que a cabeça pensa quero o que alma deseja

Não foi muita surpresa para mim, essa “incerta” como disse que faria o próprio Belchior a “um amigo seu” (e acho que não era o analista) divulgada amplamente na mídia desde o domingo 23 de agosto. O nosso genial cantor, compositor, poeta, calígrafo, dentre outras peripécias “rapaz latino americano,” não de caso pensado, sem exigir de mente tão irônica e irreverente, “cortante como uma faca” bom comportamento, na verdade não desapareceu e sim apareceu.

Até que fim. Ufa! Justiça seja ou sendo feita?A matéria foi gerada pela sua ausência óbvia da “alucinação do dia-a-dia” marcada por centenas de shows (para o nosso deleite), vida agitada e intensamente produtiva. Diante desse “procura-se” quase que desesperado do nosso “abandonador, réu confesso de lares” me atrevo a escrever sobre seu aparecimento e nunca paradeiro. Alguém se atreveu a ir além do “shopping Center” ou procurá-lo no “escuro do cinema”?

Não me atreverei a localizá-lo, “neste presente instante”, pois “não gosto que me sigam” já disse certa vez nosso rebelde e com muita causa “lido e corrido” que foi e é nos cabarés da vida, no “vivenciar o sol e não o dia ou a lua e não à noite”. Não nos preocupemos “o anjo do senhor de quem nos fala o livro santo não o convidou para uma cerveja”. Quero nestas linhas mal traçadas, pelo menos colaborar mui humildemente, pois “conheço o meu lugar” a não deixar que eles “cantem vitória e levem flores para cova do inimigo”. Ajudar na retratação “do nosso marginal bem sucedido” é o mínimo que posso fazer com Belchior. Voz vinda da alma que nos antecipou em seu lirismo único, sofisticado, simples, profundo, elegante, filosófico e “cantado pelo povo” “o cheiro da nova estação” sem nunca querer ser “voz única do que é novo”.

Por dever de ofício e ao propor ao então vereador professor Pinheiro hoje nosso vice-governador, que solicitasse a Augusta Câmara Municipal de Fortaleza que outorgasse o título de seu cidadão ao nosso rapaz “latino-americano” me “aproximei de Belchior”. Como admirador profundo da sua produção cultural e não como fã. Já ouvi irônica e dura resposta a uma “carta” de alguém que assim se reivindicou. Acho justo, portanto ajudar, não no “procura-se” ao Sr. Antonio Carlos Gomes Belchior Fonteneles Fernandes, mas no fazê-lo presente em quem ou aonde não o encontrávamos e deveria estar.

Preconceito, desconhecimento ou pelo tratamento “quase honesto” dado pela nossa grande mídia, enfim, de fato havia para sermos justos, uma injustiça a obra extraordinária do cearense Belchior, reparada por caminhos não muito floridos por “Ypês” ou “gente jovem, consciente reunida” na matéria de um desse domingos em um programa de variedades da maior emissora de TV do país. Foi na base de certo sensacionalismo apelativo peculiar a nossa mídia, “cumprindo o seu dever, defendendo seu amor e nossas vidas”. Por caminhos tortos, talvez tenha se escrito realmente certo. Vamos aguardar um pouco mais.

Juntando sonhos, sons, abraços e canções, estou atrevidamente com um projeto de escrever uma biografia do rebelde em questão nesta missiva. Sem dúvida "procura-se" ou “encontra-se” Belchior será um capítulo muito especial deste livro, de muitas aventuras, lirismo, poesia e genialidade.

Nada de caso pensado, bater perna no mundo faz parte da alma libertada conquistadas por artistas e experimentadores. De alguma maneira, por caminhos inesperados o “sumiço” o reconduziu para "ilustres desconhecedores" ao patamar de onde nunca saiu para quem o acompanha. Sua produção artística, sem comparar “com um ou outro” gênio da nossa MPB (“quem dera fosse eu, um Chico, um Gil, um Caetano cantaria todo ufano os anais da Guerra Civil”). Cada um com seu canto, no "seu espaço e canto".

Belchior está (e de fato esse reconhecimento o é devido) no seleto grupo dos maiores cantores, compositores, poetas e intelectuais da língua portuguesa e do mundo latino. Chico, Gil e Caetano, extraordinários e não menos geniais explodiram durante o auge da ditadura. Belchior um pouco depois, nos seus estertores a volta do exílio e a abertura. Não há descrição mais profunda deste tempo com cheiro de “coisas novas” e algumas velhas ameaças autoritárias, no seio do que “novo que sempre vem”.

Os antecessores foram legitimamente sem exageros (tentei explicar um dos motivos acima) mitificados e cultuados, devidamente por justiça permaneceram na mídia por vários motivos, para além do desqualificante “souberam cavar mais espaço”. Justiça com eles. Inegavelmente “bárbaros”. Injustiça com o nosso querido e não menos “bárbaro goliardo” sobralense (teria nascido em Coreáu? “Pouco me importa, não eu não sou do sertão dos esquecidos”), literalmente cidadão do mundo.

A sensação de muitos era revelada na pergunta feita a mim e a muitos que acompanham a carreira de Belchior, ele parou de produzir? Só tem esse pouco mais de 30 clássicos (como se fosse pouco diante do massacre do “lixil cultural S.A”). Nunca em tempo algum., Belchior não para, recordista disparado de shows no país, musicou divinamente em tempo recente 33 poemas de Drummond, compôs “bossa em palavrões” uma obra de arte, passeou na MPB de Marina a Chico Buarque, Roberto Carlos em “Vício Elegante” (pioneiro em regravar “bregas cults” com Aparências, bem antes de Caetano revisar Fernando Mendes).

Boicote, preconceito, mas que estamos nos referindo a um gênio e de uma obra genial que não deixa nada a desejar aos aqui citados e tantos outros, não podemos ter dúvida. Sem comparar qual é o melhor, ou escolher o “número um” em um mundo de bilhões (lógica individualista que sustenta essa coisa absurda chamada capitalismo). Isso não existe, não falo aqui de preferências e sim de coerência, justiça e reconhecimento (coisas raras nesses dias de gente “sem pão e daqui a pouco sem circo”). Acho que para um setor de classe média virou “cult” e passou a ser “chiq”, mesmo sem conhecê-los profundamente, falar superficialmente e dizer que gosta dos gênios Chico, Caetano e Gil. O simbolismo verdadeiro de resistência a ditadura, a qualidade inegável de suas obras, a ocupação da mídia, tudo isso é legitimo e justifica a maior visibilidade do trio. O “desaparecimento” de Belchior foi injustificado. Bom ter “aparecido”, ‘viver o humor das praças cheias de pessoas” para inaugurar a vida inteiramente livre e triunfante.

Belchior filosoficamente canta a “solidão das pessoas nessas capitais”, as coisas mais profundas desse país, a volta do exílio, “flores de um “68” não realizado, a abertura política, o país que se avizinhava pós-ditadura, o sexo (Sensual), imortalizada por Ney Matogrosso. Conhecem? Os dramas dos retirantes, da juventude, dos indígenas, os dramas nas grandes cidades, o homossexualismo (De primeira grandeza), os dramas e as paixões populares e a violência da noite e a barbaridade neoliberal (Bahiuno) com 500 de quê? Tudo novo e fantasticamente elaborado com a colaboração dos gênios da literatura universal e da alma portuguesa. Por favor, não me venha com o simplório e já batido “ele não tem produzido nada novo”. Já pensou. De fato ele não é xodó da grande mídia que hoje diz e dita o que é “novo e bom”. Estamos em maus lençóis. É melhor ser “fora da lei e procurado” mesmo.

A outro fator importante em que acho residir um pouco de não ser Belchior um dos “queridinhos” dos donos da nossa mídia por democratizar-se permanentemente. O “rapaz latino” continuou áspero com a “ordem”, sem parentes importantes e sempre lembrando “a inexistência dos sertões”. Os outros também, mas bem menos. De todos de maior expressão do que chamamos de MPB ele continuou nas letras e na forma de agir rebelde, quase um alternativo cantando bem menos nas maiores e mais caras "casas de espetáculos" do Brasil e muito mais em "primeiros de maio", presídios, pequenos festivais de músicas, calouradas ou em cima de uma “Kombi” em Sobral.

Continuar “com o pé na estrada”, a ausência de superprodução e a manutenção de shows públicos ou a preços populares, em qualquer “buraco” para alguns incautos o tirou a aura de gênio, para uma legião incontável de fãs o tornou mesmo que ele não tenha a intenção (acho que talvez não tenha tido mesmo) o ultimo bastião dos que não “passaram a viver e ser os mesmos que os seus pais,” uma espécie de ultimo rebelde da MPB. Acho isso fantástico. Como vive no capitalismo vende sua força de trabalho ganha seu dinheiro, se desgasta inevitavelmente “com um ou com outro” pela mistura inevitável dos negócios com artista. Infelizmente tem que ter a parte comercial e dinheiro tem a “pintura do diabo”. Talvez bater duro e insistentemente em alguns daqueles mais radicais contemporâneos de sua geração, que iriam mudar o mundo numa fração de segundos e logo, logo preferiram “vender a alma ao diabo”, “voltando pra casa para contar o seu vil metal”, tenha custado muito caro ao nosso rapaz latino-americano.

Portanto Belchior foi encontrado, ou melhor, reencontrado ainda “canta e requebra’ nos palcos pelo Brasil e no mundo afora em uma performance única , lírica, poética, popular e filosófica ao mesmo tempo. O Brasil que tanto canta em sua tropicalidade e vigor poético volta-se para ele, procura-o e o reencontra, como eterno estudante, pronto para novas “loucuras, chicletes e som”, com a “voz ativa”, sabendo “de que lado nasce o sol” pra viver “tudo outra vez” e restabelecendo seu lugar no pathernon dos grandes nomes da Musica Popular Brasileira. E não esqueçamos “as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo podem fazer renascer um mau antigo”. Pois: “A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá. A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá”.

Belchior foi encontrado.

Segundo o fantástico Belchior está em um lugarejo no Uruguai. Traremos mais informações assim que a matéria for divulgada. Já pude indentificar a pessoa que estava presente no lugarejo na "manchete" da matéria. Mais detalhes daqui a pouco.

Mauricio Dias: Uma imprensa antidemocrática

A imprensa brasileira tem sido adversária histórica das instituições representativas do País.” Essa frase, um dos mais duros veredictos já feitos sobre a imprensa brasileira, é de Wanderley Guilherme dos Santos, professor aposentado de teoria política da UFRJ, fundador do Instituto Universitário de Pesquisa do Rio de Janeiro (Iuperj) da Universidade Candido Mendes, e consagrado pela Universidade Autônoma do México, em 2005, um dos cinco mais importantes cientistas políticos da América Latina.

Ela é parte do começo de uma conversa em torno da histórica tendência golpista da imprensa brasileira, que começa assim: “Com o fim da Segunda Guerra Mundial terminou também o Estado Novo brasileiro, ditadura civil que se iniciara em 1937. No mundo todo, mas em particular no Brasil, as elites políticas tradicionais se viram acompanhadas por um eleitorado em torno de 7 milhões, mais de dez vezes superior ao da Primeira República, e um movimento sindical legalizado e participante de algumas estruturas estatais, como os institutos de pensões e aposentadorias dos trabalhadores urbanos”.

Segundo ele, a imprensa brasileira “sem embargo da retórica democrática”, tornou-se a principal adversária das instituições representativas.

“A exemplo de toda a imprensa, denominada grande, latino-americana, “jamais hesitou em apoiar todas as tentativas de golpe de Estado, quando estas significavam a derrubada de presidentes populares ou o fechamento de congressos de inclinação mais democrática”, denuncia Wanderley Guilherme.

“No Brasil – prossegue –, não existe um só jornal de grande circulação que se posicione a favor dos respectivos congressos nacionais, nas esparsas ocasiões em que estes parecem funcionar.”

Por outro lado, ele anota que “toda vez que a direita recrudesce nas urnas, sempre encontra a simpatia midiática”.

“No Brasil, o único período em que o governo contou com o respaldo de algum jornal de certa respeitabilidade foi durante o segundo governo Vargas, com a Última Hora. Não houve um único jornal popular, de grande circulação no Brasil, durante esse período”, diz Wanderley Guilherme.

Última Hora também foi o único reduto jornalístico contra o golpe de 1964, que toda a mídia apoiou. Sem qualquer constrangimento.

Conceitualmente, ele lembra, a imprensa, além de ser um instrumento de difusão de informação e análise, é um ator político “na medida em que forma opinião, agenda demandas e que, eventualmente, beneficia ou cria obstáculos para governos”.

Wanderley Guilherme comenta: “A imprensa brasileira exerce, e tem todo o direito, de ter opinião e preferências políticas. No Brasil, no entanto, ela diz que apenas retrata a realidade. É falso. Há muito da realidade que não está na imprensa e há muito do que está na imprensa que não está na realidade”.

Não é novidade no mundo democrático. Novidade, como explica Wanderley Guilherme, é presumir e passar a impressão de que isso não acontece.

“A imprensa brasileira não tolera a ideia de governos independentes, autônomos em relação às suas campanhas. Isso implica um caminho de duas mãos. Significa que ela terá de sobreviver sem os governos. Então, é preciso que os governos precisem dela”, conclui.

É um retrato do momento que o Brasil atravessa no alvorecer do século XXI.

Mauricio Dias é colunista da revista CartaCapital, onde este artigo foi publicado originalmente

Ditadura nunca mais. Que o povo tome cada vez mais a direção da barca.




















30 Anos da Anistia.
Viva o povo brasileiro.

26 anos da CUT. Viva a classe trabalhadora.












Parabéns a classe trabalhadora brasileira pelo aniversário da sua mais combativa e representativa central sindical. Viva a Central Única dos Trabalhadores em seus 26 anos comemorados nesta sexta-feira dia 28 de agosto.

Divino, musical dirigido por Patricia Pilar. Waldick Soriano

Governo anuncia novo marco regulatório do petróleo na segunda-feira

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anuncia na próxima segunda-feira (31), em Brasília, as regras de exploração do petróleo na camada pré-sal. A proposta, a ser encaminhada ao Congresso, é um marco histórico, pois prioriza o interesse nacional na administração dos recursos que advirão das mega jazidas descobertas pela Petrobras.

Entre outras medidas, propõe-se a criação de um Fundo Soberano para assegurar recursos para o sistema público de saúde, educação, previdência e outras iniciativas sociais. O texto inclui a definição da participação da Petrobras e do governo em cada bloco de óleo, a criação de uma estatal para gerir as reservas e uma nova sistemática para a distribuição de royalties a estados e municípios na área do pré-sal.

Durante reunião do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, nesta semana, o presidente Lula disse que enxerga o pré-sal como uma possibilidade de futuro. Segundo ele, em 15 ou 20 anos o Brasil pode ser outro País, industrializado e socialmente justo, com a melhoria de vida da grande maioria dos brasileiros. Lula acrescentou que isso só acontecerá com a criação de oportunidades para as pessoas. Para ele, o dinheiro originado da exploração e canalizado para o fundo vai tirar o povo da miséria na qual se encontra.

Na análise de parlamentares do PT, o fundo vai assegurar o fim das desigualdades sociais e regionais no País, superando históricos problemas. Segundo o líder da bancada do PT, Cândido Vaccarezza (SP), o novo marco regulatório para a gestão das gigantescas reservas de petróleo vai garantir ao País um salto de desenvolvimento econômico. “O Brasil vai ter um novo posicionamento no cenário internacional. Daremos um passo a mais na caminhada para colocar o Brasil entre as grandes potências mundiais”, afirmou Vaccarezza.

Na opinião do ex-presidente da Câmara , o deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), a descoberta do pré-sal propiciou uma oportunidade de se garantir um futuro melhor para o Brasil. “A Câmara e o Senado terão a importante tarefa de aprovar a nova regulamentação da exploração dos recursos petrolíferos. Em minha opinião, o processo terá que ter como referência o sentido estratégico dos recursos do pré-sal para a nação brasileira”, comentou.

Astro vagabundo. Fagner e Fausto Nilo

Velha estampa na parede, a toalha do jantar
Na fumaça um anjo negro vai chegar
Por traz da veneziana, a cigana me falar
Que um inferno monstruoso vai entrar

Mas se o astro vagabundo
na verdade vai chegar
Não quero ver o fim do mundo
Vou dormir em seu jardim

Veja a belíssima montagem no You Tube em:
www.youtube.com/watch?v=HIlFAwV-3CE

Anistia inconclusa

Hoje, há 30 anos: a Anistia inconclusa

O belo edifício que abriga o Arquivo Nacional, no Campo de Santana, no Rio, recebeu um expressivo grupo de pessoas, vindas de diferentes regiões do país, no último dia 22 de agosto, para marcar a data da aprovação da Lei 6.683/79. A lei que concedeu Anistia aos perseguidos políticos e produziu uma excrescência jurídica: os denominados “crimes conexos”. Essa pérola de criatividade terá brotado da cabeça de algum rábula que se movimentava nas dobras do arbítrio e foi oferecida ao último ditador, para assegurar a impunidade aos torturadores que serviram durante anos ao Regime. Desde então essa sombra se projeta sobre a memória do país.

Trinta anos depois, ouvimos no pátio interno do Arquivo Nacional a palavra da sociedade, dos familiares dos mortos e desaparecidos políticos e, pela boca do Ministro da Justiça, Tarso Genro, a palavra do Estado brasileiro. A alguns dos argumentos levantados, com brilho, pelo Ministro da Justiça, quero agregar outros.

“Terá havido um pacto para que se aprovasse a Lei de Anistia?” Os pactos supõem igualdade de condições. Em 1979, a sociedade brasileira ensaiava os primeiros passos para recobrar sua força e sua relevância depois de dez anos de terror. O único pacto possível era entre a corda e o pescoço... Não houve pacto. Houve a imposição do édito de um regime que antevia sua derrota e tratava de chegar a tempo de salvar a pele dos seus verdugos. Esse argumento é uma fraude.

“Não podemos reabrir feridas”, dizem os que defendem a impunidade. Cabem duas perguntas: “Quem foi ferido”? E “Essas feridas foram fechadas”? Quem prestará contas pela tortura dos opositores políticos, convertida em método rotineiro de interrogatórios? Pelos assassinatos, pelos desaparecimentos, pelas tentativas de fuga, pelos atropelamentos, pelos suicídios? Em uma frase, os defensores da tese de apagar a memória, nos convidam alegremente: vamos esquecer toda a brutalidade que nós cometemos contra vocês... e nós os perdoaremos por isso.”

“São revanchistas aqueles que desejam rever a lei da Anistia, abrir todos os arquivos”. Nós, que defendemos a abertura de todos os arquivos e julgamento dos torturadores, não defendemos que eles sejam torturados. Somos contra a tortura. Reivindicamos com a sociedade brasileira que eles sejam processados e julgados. Como foram processados, julgados e condenados, os que se levantaram contra o regime. Não somos, portanto, revanchistas.

“A Anistia foi recíproca”. Aqui recorro ao argumento da advogada Eny Raimundo Moreira, defensora de presos políticos e ex-presidente do Comitê Brasileiro pela Anistia, do Rio de Janeiro: só quem foi processado e condenado por algum delito pode ser anistiado. Nenhum torturador, nenhum delegado de polícia acusado pelo crime de tortura de presos políticos foi levado a qualquer tribunal por essa razão, no Brasil. Infelizmente.

Por fim, não é demais lembrar, a propósito dos trinta anos da publicação da Lei 6.683 de 28 de agosto de 1979, a afirmação do Dr. Marco Antônio Rodrigues Barbosa: “A tortura é um crime hediondo, não é ato político nem contingência histórica e afeta toda a humanidade, na medida em que a condição humana é violentada na pessoa submetida a esse crime. Quando alguém é torturado, somos todos atingidos duplamente: em nossa humanidade e em nossa cidadania. A prática da tortura é inaceitável e seus executores deverão ser punidos a qualquer tempo.”

A democracia brasileira deve a si mesma esse exercício de compreender e incorporar os anos da Ditadura Militar, com as perseguições, a brutalidade, a delação, o medo, a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos de perseguidos políticos, o exílio, o rosário de horrores perpetrados pelo estado ditatorial à exata dimensão histórica que lhe cabe: uma realidade incontestável que deitará sua sombra sobre a face futura do Brasil, até que seja resgatada.
Pedro Tierra é poeta. Autor do livro Poemas do Povo da Noite, escrito na prisão e reeditado pela Editora da Fundação Perseu Abramo e Editora Publ!sher Brasil, por ocasião dos 30 anos da Anistia.