sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Em carta, Lula diz a Mercadante que sua presença na liderança é imprescindível

O senador Aloizio Mercadante (PT-SP) anunciou hoje a permanência na liderança do PT no Senado em discurso na tribuna da Casa. A decisão ocorreu depois de uma conversa com o presidente Lula e com o presidente do PT, Ricardo Berzoini, na noite de ontem.

Durante o anúncio de sua permanência, Mercadante leu carta enviada por Lula nesta manhã, em que pede para ele ficar na liderança do PT no Senado.

Leia a íntegra da carta:

Meu companheiro Aloizio Mercadante,

Ontem à noite tivemos uma longa e franca conversa uma entre tantas nesses mais de 30 anos de companheirismo e amizade em comum. Você me expressou novamente, como tem feito publicamente, sua indignação com a situação do Senado federal e suas duras críticas ao posicionamento da direção do PT nos processos no Conselho de Ética. Respeito sua posição e considero um direito legitimo você expressá-las para a militância do PT e para a sociedade. Bem como continuar lutando por uma reforma profunda no Senado.

Mas, não posso concordar com sua renúncia da liderança da bancada do PT. Você tem todo o apoio de nossos senadores e senadoras. A bancada e eu consideramos você, Mercadante, imprescindível para a liderança.

Não tem sido fácil construir alianças e aprovar projetos tão relevantes ao nosso governo para superarmos a grave crise econômica internacional, como estamos superando, distribuir renda, implantar novas políticas públicas e melhorar a vida do nosso povo. Todo esse processo depende do Senado. Você tem contribuído decisivamente e sua liderança é fundamental para as nossas lutas no Senado.

Mercadante, estamos juntos há 30 anos travando as lutas que interessam ao povo brasileiro e mudando a história do país. Dificuldades e divergências fazem parte dessa caminhada, mas são menores do que ela. Em nome dessa história e dessa caminhada, fique na liderança. Esse é um pedido sincero de um velho amigo e sempre companheiro.

Luiz Inácio Lula da Silva

Genoino: PT está forte, unido e mobilizado para eleger Dilma

Leia abaixo discurso feito pelo deputado federal José Genoino (PT-SP) no plenário da Câmara Federal nesta quinta-feira (20):

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados, estamos insistindo, na tribuna da Casa, seguindo a orientação do Líder, Deputado Cândido Vaccarezza, os pronunciamentos do Presidente Lula e as posições adotadas pela Presidência Nacional do Partido dos Trabalhadores, e Deputado Ricardo Berzoini, que está em disputa, neste momento, o debate sobre o projeto que está mudando o Brasil, sob a liderança do Presidente Lula.

Todos os indicadores, todos os números, todas as avaliações atestam que esse projeto está avançando no sentido de um País mais justo, economicamente mais forte, soberano e que resolve os seus problemas pela via democrática e em negociação com o movimento social.

Esse projeto derrotou as previsões da oposição midiática e Oposição partidária, que pregavam o pior com a crise, pregavam o pior com a crise aérea, pregavam o pior com a crise do cartão corporativo e pregavam o pior na eleição de 2006 — se for mais longe — , pregavam o fim desse projeto na crise do PT de 2005.

Essas previsões catastróficas foram derrotadas porque é um projeto que mudou a vida do brasileiro. Mais do que isso. É um projeto que representa para o povo brasileiro a autoestima, representa para o povo brasileiro a identidade com os valores que a liderança do companheiro Lula sintetiza numa disputa política e, ao mesmo tempo, numa disputa de hegemonia. Foram derrotados.

Agora, a oposição midiática — muitas vezes os partidos viram porta-vozes da oposição midiática — tenta, no desespero, atingir o PT. É só ler os editoriais hoje de algum dos jornalões, que são editoriais partidários, editoriais posicionados. Tentam, agora, atingir o PT. Primeiro, o PT não está em crise. O PT tem 29% de adesão da população brasileira.

O PT está vivendo um clima de unidade, o que poucas vezes na sua história aconteceu. Inclusive, vamos fazer uma eleição direta num clima de unidade.

O PT, e a prova disso é a nossa bancada na Câmara dos Deputados, vota de maneira coesa, de maneira consciente com o Governo. É só ver as votações que têm-se processado aqui.

E a bancada do PT na Câmara tem atuado como elemento central no sentido da defesa desse projeto.

A militância do PT está mobilizada: plenárias, encontros, reuniões, filiações. O PT é uma instituição forte. E essa instituição forte que está enfrentando o projeto de mudança do Brasil não vive crise porque um ou outro companheiro sai do partido. A filiação ao partido é um ato voluntário. A desfiliação também. Nós lamentamos. E sempre lamentamos isso quando saíram do PT pessoas como Vitor Buaiz, pessoas como Maria Heloísa Fontenele, pessoas como Jacó Bittar, pessoas como a companheira Luiza Erundina, outras pessoas que saíram do PT. Nós lamentamos. E dizemos sempre uma coisa: num projeto coletivo como é o PT as lideranças são importantes, mas elas não podem ser maiores do que o partido, do que a sua militância, do que os seus filiados. Porque esse partido nos indica, essa militância socialmente organizada é um projeto que se viabilizou ao longo dos 29 anos. Projeto que enfrentou todas as dificuldades na primeira fase, nas eleições presidenciais, nas experiências de governo. E um projeto que se fortalece na combinação entre a luta social e a luta institucional. Veja a relação fundamental que temos com os movimentos sindicais e populares. E nós construímos uma experiência política exitosa, que é um sistema de sujeitos políticos que faz maioria para mudar o Brasil. É a liderança do companheiro Lula. Não há um partido de Esquerda no mundo que tenha uma liderança com a identidade, com o compromisso e com a competência e o tirocínio do companheiro Lula. Temos o PT, que tentaram, previram que o PT ia deixar de existir. E o PT hoje é forte. Temos o movimento social organizado, temos um bom governo, temos excelentes governos nas prefeituras onde governamos, temos lideranças e Parlamentares que pendem e constroem esse projeto que está mudando o Brasil. Claro que nós temos erros, temos falhas, debilidades, mas o PT, mesmo diante de erros e falhas, ele não cometeu crime na sua experiência política, nem as pessoas se enriqueceram na sua vida privada. O PT sabe avaliar seus erros, sabe avaliar suas experiências de maneira serena e humilde.

Por isso, neste momento, em que a Oposição midiática busca criar um clima de que o PT está em crise, quero dizer que o PT está unido, mobilizado, sabe onde quer chegar, quer eleger a companheira Dilma para dar continuidade a esse projeto.

Veja bem, Deputado Fernando Ferro, quando se realizou o plebiscito na Venezuela, na Bolívia e no Equador, a mídia dos jornalões e muitos na Câmara fizeram pronunciamentos radicais contra o que eles chamavam de populismo autoritário. Pois bem, Uribe aprovou no Senado consulta plebiscitária se deve disputar a reeleição. Os senhores não ouviram ninguém falar sobre isso, não viram um editorial, um pinga fogo, um pronunciamento. O Uribe, aliado das posições mais conservadoras e de direita, não sei se quem está me ouvindo sabia, porque só saiu no blog que o Senado da Colômbia aprovou a consulta plebiscitária para a reeleição do Uribe.

Terceiro mandado. Imaginem se fosse a Venezuela, Evo Morales ou Correa? Imaginem se fosse a Nicarágua, o Uruguai? Escândalo. Articulistas, cientistas políticos faziam teses sobre o risco do populismo da América Latina, mas já que é o Uribe, da Direita, aliada a uma política terrorista no tratamento dos movimentos sociais e não sabe negociar com o conflito armado que está dentro da Colômbia, e nós defendemos uma solução negociada, porque aquele não é o caminho, ninguém fala. Cadê os defensores da democracia? Cadê os defensores contra o terceiro mandato? Sumiram, porque é o Uribe.

Nós, da bancada do PT, aprovamos — e dei um parecer — por unanimidade, na CCJ, contra a tese da reeleição como referendo. A situação no Brasil está encerrada, e aqui não se fala do Uribe. Pelo discursos, artigos, manchetes, mas isso tem lado, é o lado dos que querem a mudança, dos que querem a distribuição de renda, soberania, dos que querem defender direitos que estamos realizando essa façanha na América do Sul e no Brasil.

Por isso, Sr. Presidente, que eles escolhem esse tipo de ataque. Como? De maneira barata e gratuita tentam atacar a figura da companheira Dilma.

Uma mulher que faço questão de defender, como militante político de esquerda nos anos 60. E não era fácil. Defendo-a como administradora, como defensora do nosso Governo, como uma mulher corajosa. Por trás de muitos ataques, há o preconceito em relação à mulher. Vamos trabalhar para que o PT, esse partido tão forte, que fez de um operário o primeiro Presidente da República no Brasil, faça como Presidente do Brasil a Dilma, mulher combatente e grande administradora.

Portanto, Deputado Fernando Ferro, o PT está forte.

Muito obrigado.

Nossas maravilhosas guerreiras. A revolucionária russa Alexandra Kollontai

Lula: PT continua forte e com muitas possibilidades

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quinta-feira (20), durante entrevista a emissoras de rádio do Rio Grande do Norte, que os episódios envolvendo nos últimos dias os senadores Aloizio Mercadante, Marina Silva e Flávio Arns não enfraquecem o PT nem colocam o partido em crise.

“Não vejo crise no PT (...). O PT continua forte e continua com muitas possibilidades”, disse.

Lula falou de sua relação histórica com Marina e desejou-lhe sorte no novo caminho.

“Conheço a Marina há 30 anos. Não são 30 dias. A Marina foi minha ministra até quando ela quis. E saiu porque ela pediu demissão. Se a pessoa quer sair de um partido, não está confortável, acho que é um direito da pessoa. A minha relação com a Marina não muda absolutamente nada. Eu continuo gostando dela, continuo achando um quadro extraordinário. Mas se ela quis fazer uma opção e não me procurou para conversar, ela estava com a opção feita. Da mesma forma que ela veio para o PT, ela pode sair do PT. Isso vale para mim, vale para qualquer um de nós. Saiu porque quis sair. Espero que ela tenha sorte. Espero que tudo o que ela planeje dê certo na vida porque eu quero muito bem a Marina”.

Sobre Flávio Arns lembrou que ele é um senador de primeiro mandato que sempre foi “muito encrencado” com o PT.

É "difícil" de entender? Será mesmo?


Redistribuir o tempo de trabalho

"O tempo não para. Eu vejo o futuro repetir o passado"
(
Cazuza)

Avanços técnico-científicos deste começo de século criam nas sociedades modernas condições superiores para a reorganização econômica e trabalhista. De um lado, o aparecimento de novas fontes de geração de riqueza, cada vez mais deslocadas do trabalho material, impõe saltos significativos de produtividade. Isso porque o trabalho imaterial liberta-se da existência prévia de um local apropriado para o seu desenvolvimento, conforme tradicionalmente ocorre em fazendas, indústrias, canteiros de obras, escritórios e supermercados, entre tantas outras formas de organização econômica assentadas no trabalho material.

Com a possibilidade de realização do trabalho imaterial em praticamente qualquer local ou horário, as jornadas laborais aumentam rapidamente, pois não há, ainda, controles para além do próprio local de trabalho. Quanto mais se transita para o trabalho imaterial sem regulação (legal ou negociada), maior tende a ser o curso das novas formas de riqueza que permanecem -até agora- praticamente pouco contabilizadas e quase nada repartidas entre trabalhadores, consumidores e contribuintes tributários.

Juntas, as jornadas de trabalho material e imaterial resultam em carga horária anual próxima daquelas exercidas no século 19 (4.000 horas). Em muitos casos, começa a haver quase equivalência entre o tempo de trabalho desenvolvido no local e o realizado fora dele. Com o computador, a internet, o celular, entre outros instrumentos que derivam dos avanços técnico-científicos, o trabalho volta a assumir maior parcela no tempo de vida do ser humano.

De outro lado, a concentração das ocupações no setor terciário das economias. No Brasil, 70% das novas ocupações abertas são nesse setor. Para esse tipo de trabalho, o ingresso deveria ser acima dos 24 anos de idade, após a conclusão do ensino superior, bem como acompanhado simultaneamente pela educação para toda a vida.

Com isso, distancia-se da educação tradicional, voltada para o trabalho material, cujo estudo atendia sobretudo crianças, adolescentes e alguns jovens. Tão logo concluído o sistema escolar básico ou médio, iniciava-se imediatamente a vida laboral sem mais precisar abrir um livro ou voltar a frequentar a escola novamente.

Para que os próximos anos possam representar uma perspectiva superior à que se tem hoje, torna-se necessário mudar o curso originado no passado. Ou seja, o desequilíbrio secular da gangorra social. Enquanto na ponta alta da gangorra estão os 10% mais ricos dos brasileiros, que concentram três quartos de toda a riqueza contabilizada ("Os Ricos no Brasil", Cortez, 2003), há apenas 6% da população que responde pela propriedade dos principais meios de produção da renda nacional ("Proprietários: Concentração e Continuidade", Cortez, 2009).

Em contrapartida, a ponta baixa da gangorra acumula o universo de excluídos ("Atlas da Exclusão Social no Brasil", Cortez, 2004), que se mantêm historicamente prisioneiros de brutal tributação a onerar fundamentalmente a base da pirâmide social. No mercado nacional de trabalho também residem mecanismos de profundas desigualdades, como no caso da divisão do tempo de trabalho entre a mão de obra.

Em 2007, por exemplo, a cada 10 trabalhadores brasileiros, havia 1 com jornada zero de trabalho (desempregado) e quase 5 com jornadas de trabalho superiores à jornada oficial (hora extra). Além disso, 4 em cada grupo de 10 trabalhadores tinham jornadas de trabalho entre 20 e 44 horas semanais, e 1 tinha tempo de trabalho inferior a 20 horas por semana.

O pleno emprego da mão de obra poderia ser alcançado no Brasil a partir de uma nova divisão das jornadas de trabalho, desde que mantido o nível geral de produção. A ocupação de mais trabalhadores e a ampliação do tempo de trabalho dos subocupados poderia ocorrer simultaneamente à diminuição da jornada oficial de trabalho e do tempo trabalhado acima da legislação oficial (hora extra).

Com redistribuição do tempo de trabalho o reequilíbrio da gangorra social, torna-se possível.

Marcio Pochmann, economista, é presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e professor licenciado do Instituto de Economia e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho da Unicamp.Foi secretário do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade da Prefeitura de São Paulo (gestão Marta Suplicy).
Texto originalmente publicado na coluna Tendências/Debates do jornal Folha de S. Paulo, edição de 20/08/2009.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Carta de petista para Marina Silva.

Companheira Marina

Vinte e dois anos depois de sua fundação, o Partido dos Trabalhadores, liderando uma frente de partidos e movimentos sociais, venceu eleitoralmente a perspectiva neoliberal que paralisara o país por duas décadas. Ao assumir a Presidência da República em janeiro de 2003, o governo Lula tinha diante de si duas tarefas gigantescas: retomar o crescimento e superar as marcas fundamentais que definiram os ciclos de desenvolvimento do século XX. Sabemos todos que o Brasil foi um dos países que mais cresceram durante o século XX, se considerarmos o PIB. No entanto, crescemos, sob ditaduras; crescemos, concentrando renda; e crescemos depredando os recursos naturais.

Ao longo desses quase sete anos de governo podemos afirmar que o governo Lula cumpriu o compromisso que o Partido dos Trabalhadores e o próprio candidato estabeleceram com a sociedade brasileira: retomamos o crescimento depois de duas décadas de estagnação. A retomada levantou para nós o triplo desafio para qualificar o ciclo do século XXI: desenvolver o Brasil aprofundando as conquistas democráticas; desenvolver o Brasil com distribuição de renda combatendo as criminosas desigualdades sociais e regionais; e desenvolver o Brasil incorporando a sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo.

Os dois primeiros desafios estão encaminhados: vivemos uma experiência democrática em que as instituições funcionam e se amplia a participação popular nos processos de tomada de decisão; vivemos uma dinâmica de investimento do estado no combate às desigualdades sociais e regionais que nos permite dizer ao mundo, como na recente pesquisa do IPEA, que no Brasil as camadas mais pobres da população elevam sua qualidade de vida em meio à crise mundial. O terceiro desafio não está encaminhado satisfatoriamente. O novo ciclo de desenvolvimento ainda não incorporou a dimensão da sustentabilidade socioambiental à sua cultura, ao seu comportamento. Mesmo considerando as conquistas alcançadas na formulação e condução das políticas socioambientais sob sua responsabilidade ao longo de cinco anos e meio à frente do Ministério do Meio Ambiente. Temos, portanto, aí um grande desafio a vencer para conferir uma nova qualidade à continuidade do nosso projeto. Evidentemente, é indispensável ouvir as razões de Marina Silva.

As razões de Marina Silva

Há pelo menos três razões para que ouçamos com discernimento e fraternidade o clamor em defesa da Terra – o frágil planeta que recebemos da humanidade que nos precedeu – e nos chega pela voz da companheira Marina Silva neste momento decisivo de sua trajetória.

Durante muito tempo a esquerda ouviu com uma sensibilidade menor e uma apenas discreta atenção os argumentos daqueles que puseram no centro de sua agenda, de suas angústias e esperanças, a luta pela sobrevivência do planeta. Mesmo quem examinava os argumentos, com sincera boa vontade, não deixava de sentir que havia ali, talvez, as marcas de um diagnóstico excessivo, de uma urgência artificiosa ou, quem sabe, de um viés tendencioso ou algo messiânico.

Agora, não temos mais este direito, depois do que viemos a saber, do que ficou inapelavelmente confirmado por cientistas de todo mundo, com destaque para o Relatório da ONU sobre as Mudanças Climáticas, do que é afirmado pelas consciências mais lúcidas. A causa da sustentabilidade socioambiental deve estar no centro da agenda no século XXI, configurando junto com a paz e a superação das desigualdades sociais e raciais, de gênero e de regiões, um novo paradigma de civilização.

Esta é a primeira razão de Marina: a sua exigência por uma opção radical que urge e que emociona a sua voz serena.

A companheira Marina há de concordar que o governo Lula é o governo da história republicana brasileira que mais fez por um programa ecológico. Não se conhece outro no qual a tensão entre desenvolvimento econômico e a preservação da natureza tenha ido ao centro de sua dinâmica. Entre suas conquistas estão a redução consistente no desmatamento da Amazônia, o alargamento inédito das áreas de preservação, a busca de alternativas econômicas para a “floresta em pé”, por meio da Lei de Florestas Públicas, o encaminhamento reconhecido internacionalmente dos compromissos relativos ao combate ao aquecimento global. Pela primeira vez na história, o Estado brasileiro começou a regular os investimentos econômicos pela lógica da sustentabilidade. A Resolução do Conselho Monetário Nacional proposta pela então Ministra Marina Silva que condiciona a liberação de recursos para empreendimentos do agronegócio nas áreas da fronteira agrícola, aos critérios de sustentabilidade socioambiental, produziu uma forte reação deste setor. Este é apenas um exemplo.

Mas estes avanços históricos são ainda insuficientes diante do novo ciclo de desenvolvimento brasileiro iniciado nessa primeira década. Mais carros, mais combustíveis, mais consumos extras e supérfluos , mais pressão sobre a Amazônia e as fronteiras agrícolas, reprodução em escala ampliada de padrões de consumo típicos de países capitalistas centrais. A agenda ecológica estará perdida se condenada a lutar apenas na resistência, caso a caso, na regulação e na contenção das vertentes mais agressivas do crescimento. O que se requer é um novo paradigma de desenvolvimento: a economia verde do século XXI. Não apenas uma contenção e regulação, mas uma reposição e uma programatização ampla dos fundamentos socioambientais do desenvolvimento brasileiro.

Esta é a segunda razão de Marina: ainda não temos este paradigma. É preciso construí-lo.

O PT foi o primeiro partido socialista brasileiro a incorporar, como contribuição inestimável da geração da qual Chico Mendes e Marina fazem parte, a temática do desenvolvimento sustentável. Provavelmente estão na extensa rede de militantes, filiados e simpatizantes do nosso partido a maior parte dos que sustentam a utopia verde. Há uma crescente sensibilidade em relação à consciência ecológica por parte das lideranças do PT. Mas ela ainda é uma agenda setorial, isto é, não vertebra, não estrutura, não orienta as suas prioridades.

Esta é a terceira razão de Marina: o PT ainda não é um ator central na construção da utopia verde que necessitamos com urgência, capaz de se traduzir num projeto político nacional, sul-americano, que responda, num horizonte visível, aos desafios de formular um novo paradigma de desenvolvimento que supere os padrões – insustentáveis – de produção e consumo que nos conduziram à grande crise ambiental em que a humanidade se debate nos dias de hoje.

Liberalismo ecológico?

O claro diagnóstico da comunidade científica internacional, a pressão da opinião pública internacional, a sensibilidade crescente diante dos desastres ecológicos tem feito surgir um fenômeno novo, no centro e na periferia do mundo capitalista: um liberalismo ecológico. Isto é, a formação de uma consciência e de um programa que pretende unir capitalismo e ecologia, mercado e regulação, absorvendo a consciência ecológica em um paradigma de uma humanidade ainda organizada para a produção de mercadorias. Este fenômeno não deixa de ser relevante para a causa da sustentabilidade do desenvolvimento.

No Brasil, há hoje, com todos os cálculos voltados para as eleições de 2010, um claro esforço por parte de empresários, por parte do PSDB e de setores ecológicos anti-socialistas, de abraçar uma agenda verde. Nada mais patético do que a série de filmetes, repetidos em horário nobre, por exemplo, do Banco Bradesco contando a história de Chico Mendes e das causas ecológicas da Amazônia.

Mas esse Eco-liberalismo apresenta grandes limites. O primeiro é que, centrado em uma base empresarial, terá como horizonte sempre a regulação do mercado, de sua potência agressivamente destrutiva, e não a formação de um novo paradigma que não pode estar assentado na exploração e na maximização do lucro. O segundo, e de implicações mais graves, é o que separa o grito do planeta – cuja expressão está sob nossos olhos com as catástrofes climáticas – do grito dos oprimidos, o grito da Terra e o grito dos pobres, a causa da sustentabilidade ambiental e a causa social! Isto é, na direção contrária que aponta a grande Teologia da Libertação de Leonardo Boff.

No Brasil, esta separação entre a causa ambiental e a causa social, entre a luta ecológica e movimento sindical, o Movimento dos Sem-Terra, as CEBs , os Movimentos Negros e de Mulheres e toda a rede social que organiza a luta dos pobres contra a exploração, seria uma tragédia. A luta em defesa da sustentabilidade socioambiental soma, mobiliza, sopra para além das esferas de um só partido. Ela requer grande ambiência social, um espírito novo de convergência, de horizontes e cores tão plurais como as da complexa sociedade democrática que estamos construindo. Por isso não pode ser neutra, pretender eqüidistância da luta dos que têm fome e sede de justiça!

Trazendo para o chão da política a sociedade brasileira estará posta diante da escolha: dar continuidade ao projeto que elegeu Lula por duas vezes ou interrompê-lo. E fazer dele à luz da História, como já disse alguém, apenas um breve intervalo nos quinhentos anos de mando dos senhores de escravos e seus herdeiros sociais. Vivemos numa democracia, a precária democracia que conquistamos a duras penas nos últimos trinta anos. Não vemos suas angústias e dúvidas publicamente colocadas como um escândalo, portanto. Só os sectários não percebem o que a trajetória de vida e de militância política de Marina Silva significam para a afirmação da agenda socioambiental no Brasil. E, em torno desta agenda, o debate incontornável para desafiar a imaginação da sociedade na busca da qualificação do novo paradigma de desenvolvimento que desejamos para o país e para o planeta.

Os setores sociais e políticos que desejam interromper o processo que inauguramos com os dois mandatos do Presidente Lula, desejam encontrar um lugar na disputa dos rumos do país, contando com uma voz respeitada no Brasil e no mundo quando se trata das questões ambientais. Uma voz com credibilidade. Por uma razão muito simples: a mensagem de Marina Silva é a vida de Marina Silva. Essa voz serena e lúcida, ancorada numa vida militante identificada com o impulso dos mesmos movimentos sociais que deram berço ao PT, à CUT, ao CNS, ao MST : aqui reside sua força e não em outro lugar. São estes movimentos e outros tantos disseminados nessa fabulosa rede que anima as lutas populares em todos os recantos do país, que vêm mudando a face do Brasil – ainda que de maneira insuficiente – nos últimos trinta anos.

Ouvir a voz de Marina Silva e debater com ela

As esquerdas têm o dever de ouvir a voz de Marina Silva. As razões de Marina Silva. Ela, que já deu tanto à nossa geração, receba, agora, por todos os lados, a nossa mão estendida. As mãos que teceram ao longo de três décadas a rede de sonhos e esperanças que nos mobilizou a todos; a capacidade de organizar nossa ação na base da sociedade para reivindicar direitos sociais por meio da CUT; levantar bandeiras ambientais como nos “empates” liderados por Chico Mendes para deter a voracidade dos desmatadores da Amazônia; ou para formular e conduzir políticas públicas de desenvolvimento sustentável no Ministério do Meio Ambiente, liderados por ela. Nós que já sonhamos tanto por uma sociedade de harmonias, livre das opressões, precisamos também saber compor com as harmonias da Terra.

Que o programa de governo a ser apresentado pelas forças políticas que defendem a continuidade do processo inaugurado com o governo do Presidente Lula incorpore a dimensão da sustentabilidade socioambiental à cultura do novo ciclo de desenvolvimento. E estabeleça, explorando até o limite das nossas consciências e criatividades, um novo paradigma que supere o padrão de produção e consumo definido pelo capitalismo liberal.

Que o próximo Congresso Nacional do PT marcado para fevereiro de 2010 – nos trinta anos da nossa fundação – leve o nome do companheiro Chico Mendes como forma de trazer para o centro do debate das esquerdas a centralidade da agenda que ele prefigurou com sua vida e sua militância e selou com sua morte, projetando o Brasil na liderança mundial por um novo paradigma de civilização no século XXI.

Brasília, 15 de agosto de 2009.

Juarez Guimarães - professor UFMG

Hamilton Pereira - Conselheiro da Fundação Perseu Abramo

Paulo Vannuchi – Secretário Especial de Direitos Humanos

Tarso Genro – Ministro da Justiça

Guilherme Cassel – Ministro do Desenvolvimento Agrário

Fernando Haddad – Ministro da Educação

Miguel Rossetto – Presidente da Petrobras Biocombustível

José Eduardo Cardozo – deputado federal PT - SP

Paulo Teixeira – deputado federal PT – SP

Henrique Fontana – deputado federal PT – RS

Pepe Vargas – deputado federal PT - RS

Arlete Sampaio - DN – PT

Carlos Henrique Árabe - Executiva Nacional PT

Elói Pietá – DN – PT

Joaquim Soriano – DN - PT

Gilmar Machado - deputado federal PT-MG

Francisco Praciano – deputado federal PT-AM

Eudes Xavier – deputado federal PT – CE

Dr. Rosinha – deputado federal PT - PR

Raul Pont – deputado estadual PT-RS

Ronaldo Zulke – deputado estadual PT - RS

Daniel Bordignon – deputado estadual PT - RS

Janete Pietá – deputada federal PT - SP

Margarida Salomão, professora da UF Juiz de Fora

Jorge Bittar - secretário de Habitação da prefeitura do Rio

Alessandro Molon - deputado estadual

Jorge Mario - prefeito de Teresópolis

Marcello Zelão - prefeito de Silva Jardim

Beto Bastos - suplente do Diretório Nacional do PT

Alberes Lima - Presidente do DM PT Rio

Inês Pandeló - deputada estadual

Cristina Dorigo - secretária de mulheres PT-RJ

André Victor Singer - professor da USP

Arquimedes Diógenes Ciloni - ex-reitor da Universidade Federal de Uberlândia

Ricardo Duarte - ex-deputado estadual - MG

Artur Scavone – PT –SP

Ricardo de Azevedo, membro DN

Zilah Abramo

Antonio Fidelis - Secretário Estadual de Meio Ambiente do PT-SP e Presidente do DM de Diadema.

2º Colóquio Nacional PT e Movimentos Sociais ocorre em setembro, em São Paulo

O PT vai realizar o 2º. Colóquio Nacional PT e Movimentos Sociais nos dias 12 e 13 de setembro, em São Paulo no Hotel Braston (Rua Martins Fontes, 330 – Consolação).

De acordo com a Secretaria Nacional de Movimentos Populares, o evento servirá para o aprofundamento dos temas da presente conjuntura política e para a busca de elementos comuns de luta e esforço político entre o PT nacional e os principais movimentos sociais nacionais.

Durante o Colóquio participarão 100 dirigentes políticos – 40 indicados pelo PT, incluindo nesta delegação dirigentes partidários, parlamentares e integrantes do governo e 60 convidados dos movimentos sociais.

Durante os dois dias, os participantes debaterão sobre a conjuntura política, econômica e social atual; o legado do governo Lula e a avaliação dos movimentos sociais; a construção de uma pauta comum de ação para o PT e os movimentos sociais em 2009 e 2010 (consolidação de instrumentos consolidados pelo governo Lula ainda não institucionalizados; demandas históricas dos movimentos sociais em tramitação no âmbito do governo ou do Legislativo a serem priorizadas; medidas de caráter anti-neoliberal de enfrentamento da crise) e o projeto democrático e popular para o Brasil.

A comissão organizadora deste evento, indicada pelo Diretório Nacional do PT, é composta por Renato Simões, Secretário Nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais do PT; José Eduardo Cardoso, Secretário Geral do PT; Gilberto Carvalho e Luiz Dulci, dirigentes nacionais do PT; e Aloísio Mercadante e Cândido Vacarezza, líderes das bancadas no Senado e na Câmara dos Deputados.

A confirmação da participação e do nome do representante desta entidade pode ser confirmada junto à Secretaria Nacional de Movimentos Populares e Políticas Setoriais do PT, pelos e-mails ptrenatosimoes@terra.com.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email ; silvia@pt.org.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email ; e maristella@pt.org.brEste endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email . Solicitamos que essa indicação ocorra até o dia 5 de setembro, para melhor organização.

Mais informações pelos telefones: 19.8197-4058 (Renato Simões); 11.3243-1382 (Silvia Ramos) e 61.3213-1425 (Maristella Matos). A programação das mesas será encaminhada oportunamente às representações indicadas.

Clique aqui para ver a convocatória assinada pelo presidente do Pt, Ricardo Berzoini.

SNMP

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Se eu estava otimista no auge da crise, imagina como estou agora", diz Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (17), em seu programa de rádio semanal Café com o Presidente ,que há “duas esperanças” contidas no programa Minha Casa, Minha Vida: a de ter uma casa e a de ter um emprego, em decorrência das obras de construção civil. “Se eu estava otimista no auge da crise, imagina como estou agora, vendo a crise desaparecer aos poucos e vendo um futuro muito importante para o Brasil em 2010”, disse o presidente.

Segundo Lula, o programa ainda permanece na fase de cadastramento das pessoas interessadas. Ele se disse esperançoso de que os empresários e prefeituras estejam “preparados” porque é preciso “trabalhar urgentemente” para resolver o deficit habitacional no país.

Ao comentar a visita que fez ao trecho em obras da Ferrovia Norte-Sul no estado de Goiás, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os investimentos no setor representam “um grande desenvolvimento” para o país. “Vamos dar ao Brasil aquilo que deveríamos ter construído há 20 ou 30 anos, quando, praticamente, abandonamos as nossas ferrovias”, disse.

Durante o programa, ele lembrou que a rodovia começou a ser construída em 1987 e que, pouco antes de sua posse, apenas 215 quilômetros haviam sido concluídos. Atualmente, 560 quilômetros foram construídos. “Fizemos em sete anos quase o dobro de tudo aquilo que foi feito em 17 anos. Por que? Porque [a ferrovia] não foi considerada prioridade depois que o presidente Sarney deixou a Presidência da República”, afirmou.

"Vamos fazer um processo de integração extraordinário de ferrovias, dando competitividade aos produtos agrícolas" e a outros manufaturados da Região Centro-Oeste do Brasil.