segunda-feira, 29 de junho de 2009

Frente Ampla do Uruguai irá de Mujica para presidente

O ex-guerrilheiro tupamaro José Mujica será o candidato da governista Frente Ampla nas eleições presidenciais uruguaias de 25 de outubro. Mujica venceu neste domingo (28) as prévias no interior da frente partidária de esquerda, obtendo de 53% a 57% dos votos, conforme pesquisa de boca de urna do instituto Factum.


Mujica ao votar na prévia da Frente Ampla
O ex-ministro da Economia Danilo Astori, que concorreu com Mujica defendendo posições mais ao centro, teve entre 34% e 38% conforme a pesquisa. O prefeito de canelones (perto de Montevidéu), Marcos Carámbula, ficou com 7% a 9%. O diretor da Factum, Oscar Botinelli, apresentou os números no Canal 4 da TV uruguaia.

Mujica hoje é senador pelo MPP (Movimento de Participação Popular), sucessor político dos tupamaros e maior agremiação da Frente Ampla. Durante a ditadura passou 14 anos no cárcere, tornando-se uma lenda viva da resistência. Após a vitória da Frente Ampla em 2004, que elegeu o atual presidente Tabaré Vásquez, foi ministro da Agricultura por três anos, mas deixou a pasta para se permitir uma postura mais crítica face ao governo.

A indicação de Mujica é vista como um passo da Frente Ampla à esquerda. Já Astori representaria uma continuidade do governo de Vásquez, com uma postura de centro-esquerda tradicional, que o levou a considerar longamente a possibilidade de um Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos.

Dois candidatos da direita

Também neste domingo aconteceu a prévia no Partido Nacional (ou Blanco), principal sigla da oposição uruguaia conservadora. O ex-presidente Luis Lacalle foi escolhido para disputar a eleição, obtendo de 56 a 58%. A disputa foi polarizada com Jorge Larrañaga, que teve de 42% a 44%.

O Partido Colorado, também conservador, escolheu para candidato presidencial a Pedro Bordaberry. O filho do ex-ditador Juan Bordaberry (1974-1976) conseguiu entre 74% e 80% conforme a boca de urna.

No Uruguai as prévias dos partidos e frentes são regulamentadas por lei e ocorrem em uma mesma data. A Frente Ampla é considerada a favorita na eleição presidencial, já que os partidos tradicionais, Blanco e Colorado, sofreram um longo desgaste que culminou com a eleição de Vásquez. No entanto, os problemas derivados da crise econômica podem levar a um segundo turno, onde blancos e colorados tendem a se unir contra o inimigo comum.

Greve Geral em Honduras contra o golpe militar.


Hondurenhos convocam greve geral contra o golpe

As forças populares de Honduras convocaram uma greve geral com início nesta segunda-feira (29), em apoio ao presidente constitucional da república, Manuel Zelaya. Neste domingo Zelaya foi vítima de um golpe militar. Tropas do exército entraram na residência presidencial, atirando, sequestraram Zelaya e o conduziram a força para a Costa Rica. À tarde, o Parlamento, sem a presença dos deputados legalistas, depôs Zelaya e empossou em seu lugar o presidente do Legislativo, Roberto Micheletti.
O presidente da federação Unitária de Trabalhadores de Honduras, Juan Carlos Barahona, disse à Agência Bolivariana de Notícias, em entrevista por telefone, que ''o povo vai manter a resistência'', concentrando-se diante da sede do governo e exigindo a volta do presidente eleito pelo povo em 2005.

''Também nos outros departamentos do país o povo está nas ruas, mobilizado'', disse Barahona.

Os militares golpistas ameaçaram impor um toque de recolher em Tegucigalpa, mas Barahona disse que ele não será obedecido. ''A decisão que temos é de continuar nas ruas. Ninguém irá para casa nem abandonará essa luta'', afirmou.

''Vamos desafiar esse toque de recolher dos golpistas e militares gorilas'', agregou. O termo ''gorila'', usado na América Latina do século passado para designar militares truculentos e golpistas, voltou subitamente à atualidade depois do golpe.

''Pela primeira vez, dignidade''

A representante do Sindicato dos Trabalhadores no Registro de Pessoas, Maritza Somoza, informou que a iniciativa da greve geral é apoiada por todos os trabalhadores, pelas confederações de organizações sindicais de Honduras.

A sindicalista salientou que o movimento sindical hondurenho tem uma profunda motivação para apoiar o presidente. Argumentou que o governo de Zelaya foi o único que deu dignidade aos trabalhadores.

''É a primeira vez que um presidente nos dá dignidade'', disse Maritza. Ela observou que, em resposta a essa dignidade, a bandeira do povo hondurenho será agora a convocação da Assembléia Nacional Constituinte .

''A bandeira do povo hondurenho já não é a consulta, da qual participávamos de maneira simbólica, mas agora vai será a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Agora o que queremos é um governo que esteja diretamente nas mãos do povo'', disse a líder sindical.

Ela descreveu esse processo como ''o despertar do povo hondurenho''. ''Este povo já foi apático, nunca tínhamos visto que as pessoas respondessem como agora''.

Maritza descreveu que, enquanto os trabalhadores apóiam o presidente Zelaya, a burguesia foge do país, tirando de Honduras os seus filhos e interesses económicos. Disse que o governo constitucional perdoou uma dívida de mais de 8,7 milhões de lempiras (moeda de Honduras) de várias empresas privadas, mas a burguesia continua a hostilizá-lo.

Deputado vê 37 cidades mobilizadas

O deputado Marvin Ponce, do partido Unificação Democrática, que apóia Zelaya, avaliou que existem 50 mil pessoas em 37 cidades dispostas a resgatar o mandato presidencial truncado pelo golpe. Para Ponce, a mobilização acontecerá mesmo que haja repressão, pois a única saída para a crise é o retorno do presidente, o fim do ''governo usurpador'' e o julgamento dos deputados que estão apoiando o golpe.

O deputado Tomas Andino Mencias, do mesmo partido, esclareceu que ele e seus companheiros não participaram da sessão do Congresso que entregou o poder a Micheletti. Segundo Mencias, os parlamentares legalistas estão sendo presos.

Oito ministros também teriam sido presos, entre eles Patricia Rodas, ministra de Relações Exteriores, que fez um chamamento à resistência popular antes de ser detida. Patricia foi presa por militares encapuzados e armados, na presença dos embaixadores da Venezuela, de Cuba e da Nicarágua, que a visitavam para hipotecar-lhe apoio.

Condenação mundial

Enquanto Honduras prepara a greve geral, a reação mundial ao golpe deste domingo prenuncia um forte isolamento das forças que sequestraram e depuseram Zelaya. No entanto, Barahona condenou duramente o comportamento da mídia mercantil de Honduras.

''Se a comunidade internacional está nos apoiando, é graças aos meios de comunicação de países irmãos, porque aqui em Honduras toda a mídia está com os golpistas, exceto uma única emissora'', explicou.

A OEA (Organização dos Estados Americanos) convocou uma reunião de emergência na sua sede em Washington, para discutir a crise hondurenha. O secretário-geral da Organização, José Miguel Insulza (chileno), pronunciou-se com clareza:

''Estamos evidenciando uma ruptura da ordem constitucional, que só pode ser catalogada como um golpe de Estado'', afirmou Insulza. Ele informou que estava em contato telefônico com o presidente derrubado, que se encontra em San José da Costa Rica. E propôs que a OEA o envie a Honduras, para realizar gestões ''para reconstituir a institucionalidade e a democracia''.

Morre Goffredo da Silva Telles, o jurista antiditatorial

















O jurista Goffredo Carlos da Silva Telles, de 94 anos, morreu na noite deste sábado (27), em São Paulo. Segundo familiares, ele morreu em casa, de causas naturais, por volta das 19 horas. Goffredo foi um dos personagens marcantes da resistência à ditadura militar. Em agosto de 1977, leu a Carta aos Brasileiros, de sua autoria, clamando por democracia.


Goffredo faz a leitura da 'Carta' desafiando a ditadura
O jurista leu o documento histórico de protesto no Largo de São Francisco, centro de São Paulo, diante da tradicional Faculdade de Direito, onde sempre lecionou. A leitura foi acompanhada por uma pequena multidão de estudantes e professores. A Carta aos Brasileiros foi um anúncio do renascimento antiditatorial que ganharia vulto noa anos seguintes.

O enterro será às 16h no cemitério da Consolação. Em 1932, Telles participou como soldado da Revolução Constitucionalista de São Paulo e em seguida mostrou simpatias pelo integralismo. Em 1946, foi deputado constituinte e notabilizou-se, entre outras causas, pela defesa da Amazônia. Entrou para a história, porém, como íntegro impulsionador da resistência antiditatorial.

Desde 1940 era professor de direito na USP, onde lecionou por 45 anos e formou gerações de advogados e juristas. Telles teve um filho com a escritora Lygia Fagundes Telles.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou, em nota, que a morte do professor e jurista Goffredo da Silva Telles lhe causou profundo pesar. De acordo com Lula, o professor foi um dos ''mais destacados combatentes pela democracia e pelo Estado de Direito da história do Brasil''. Lula lembrou ainda que, em 1932, com apenas 17 anos de idade, Goffredo alistou-se como soldado na Revolução Constitucionalista.

Lula afirmou que o professor lecionou na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, da Universidade de São Paulo, ''conquistando a admiração de milhares de alunos e discípulos, dando lições não apenas de Direito, mas também de humanismo, generosidade e fé na luta por um mundo mais justo e fraterno.''

Lula condena golpe em Honduras e diz que Brasil não reconhecerá novo governo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva condenou nesta segunda-feira (29) o que considera um golpe de Estado em Honduras. Segundo ele, a única saída para o país é a democracia. “Não há meio termo. Temos que condenar esse golpe”, disse, em seu programa semanal de rádio Café com o Presidente.

O presidente de Honduras, Manuel Zelaya, foi detido por um grupo de militares ontem (28) – horas antes de o país iniciar uma consulta pública para reformar a Constituição, o que daria ao presidente a possibilidade de reeleição. A consulta pública foi considerada inconstitucional pelo Parlamento e pela Suprema Corte de Honduras.

“Não podemos aceitar ou reconhecer qualquer novo governo que não seja o do presidente Zelaya, porque ele foi eleito diretamente pelo voto, cumprindo as regras da democracia. E nós não podemos aceitar mais, na América Latina, alguém querer resolver o seu problema de poder pela via do golpe”, afirmou Lula.

Para ele, Zelaya deve retomar a Presidência de Honduras. O presidente brasileiro alertou ainda que essa é a “única condição” para que o Brasil possa estabelecer qualquer tipo de relação com o país. “Se Honduras não revir a posição, vai ficar totalmente ilhado no meio de um contingente enorme de países democráticos”, disse.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Anistia a camponeses resgata o Brasil escondido pela ditadura

Nos anos 1970, aviões da Força Aérea Brasileira realizaram uma verdadeira operação de guerra na região do Bico do Papagaio, entre o Sudeste do Pará e Norte de Goiás (hoje Norte do Tocantins). Mais de 30 anos depois, em 18 de junho de 2009, uma aeronave da mesma FAB pousava no aeroporto de Marabá (PA) – outrora base militar da ditadura – levando o ministro da Justiça, Tarso Genro, cuja missão era pedir perdão em nome de Estado braisleiro a camponeses perseguidos. Um fato histórico e inédito num país que ainda se divide entre a necessidade de conhecer seu passado e punir seus algozes e os interesses daqueles que trabalham para manter na obscuridade algumas das páginas mais cruéis de nossa história.

Por Priscila Lobregatte*

A praça Frei Gil, no centro de São Domingos do Araguaia – a cerca de 60 quilômetros de Marabá – recebeu mais de 300 pessoas que, resistindo a um calor de 37 graus, esperavam ansiosas o anúncio dos anistiados. Ali, homens e mulheres, a maioria idosa, ouviu do ministro o pedido de perdão do Brasil. “O Estado deve se envergonhar e se desculpar pelos crimes cometidos no passado. O que vocês sofreram não tem pagamento”, disse Genro chamando os anistiados a se levantarem, de maneira que pudesse olhar a face emocionada de cada um.
Para ele, “quando o país pede desculpas pelos erros que cometeu, está dando solidez e conteúdo ao Estado de direito e, ao mesmo tempo, está prevenindo para que não aconteça novamente a violência e a morte de brasileiros que lutam por um destino melhor enquanto outros, a mando do Estado, lutam para manter, através do autoritarismo, os privilégios de alguns”.
Ao Vermelho, o presidente da Comissão de Anistia, Paulo Abrão Pires Júnior, disse que “o povo da região do Araguaia é um patrimônio histórico da humanidade porque tem em si a memória viva de um episódio de repressão que nenhum de nós deseja que se repita”. Ele lembrou que uma das dificuldades encontradas pelos conselheiros foi lidar com o temor que ainda ronda a região, mesmo após passadas mais de três décadas da ação do Exército.
“Nas duas comitivas da Comissão que estiveram aqui colhendo depoimento, percebemos nitidamente que ainda há a cultura do medo, o que impediu que alguns pudessem falar a verdade com receio até mesmo de sofrer as mesmas agruras e as mesmas torturas psicológicas e físicas do passado”. Pouco a pouco, no entanto, “a população vai percebendo que as liberdades públicas e a democracia vieram para ficar e contar essa história é um resgate de nossa própria memória”. Mas, enfatizou Abrão, “nosso país ainda tem muito a fazer para recuperar sua história”.
O presidente da Comissão lamentou o fato de persistir, em diversos setores da sociedade – entre eles a mídia –, uma avaliação equivocada sobre a concessão de anistia e de reparação aos perseguidos políticos. “Há uma visão, que considero conservadora, que não reconhece o direito daqueles que foram atingidos pela ditadura militar de receberem uma reparação econômica por prejuízos sofridos”.
Segundo Abrão, “o princípio da reparação é um dever universal reconhecido pela ordem jurídica e por tratados internacionais de direitos humanos. Portanto, temos a convicção de que é mais do que um dever do Estado promover indenização àqueles a quem o próprio Estado – que tinha o dever de proteger – em verdade, perseguiu, torturou e prejudicou ”.

Julgamento

Os casos anunciados no dia 18 foram julgados na véspera, no Ministério da Justiça, em Brasília, e são o resultado de duas audiências realizadas na cidade paraense em 2007 e 2008. Durante a sessão, 15 conselheiros, além do presidente da Comissão, analisaram 91 de um total de 304 pedidos de anistia referentes à guerrilha. Sete foram tirados de pauta a pedido de seus relatores devido à ausência de elementos que permitissem uma avaliação aprofundada. Dos 84 restantes, 44 foram deferidos e 40 indeferidos, dentre os quais 16 eram de militares que combateram os guerrilheiros. Os demais eram de servidores públicos – principalmente do Incra – requisitados pelo Exército para ajudar na operação e de requerentes que não conseguiram provar que viviam na região na época da guerrilha.
Quinze requerimentos – um de camponês e 14 de guerrilheiros – foram julgados em outras ocasiões e há três recursos e quatro arquivados, restando ainda o julgamento de 198 casos. Na sessão oitiva de sexta-feira (20), mais de 70 pessoas foram ouvidas a fim de esclarecer pontos ainda pendentes em seus processos.
Segundo dados da Comissão, até dezembro de 2008 foram autuados 62.964 processos; mais de 46 mil foram julgados. Ao todo, 29.909 foram deferidos e destes, 64,2% não tiveram reparação econômica. Em média, as indenizações de prestação única giraram em torno de 56 mil reais e as mensais em torno de 3.507 reais. No caso dos camponeses anistiados, a indenização retroativa variou entre 80.352 reais e 142.941 reais. O retroativo é calculado a partir de cinco anos antes da entrada do processo na Comissão até a data do julgamento.
Uma das dificuldades que envolvem os julgamentos de camponeses é a falta de documentação pessoal ou que comprove o parentesco entre o requerente e o perseguido. A principal particularidade destes casos, porém, é a falta de vínculo empregatício, um dos fatores exigidos na lei 10.559/202 (lei de Anistia) para a prestação mensal, permanente e continuada. Para lidar com essa situação diferenciada e permitir que houvesse justiça para esse conjunto de anistiandos, a Comissão partiu do princípio da “presunção de veracidade”, considerando verídicos os fatos alegados pelos requerentes, “salvo prova em contrário”. Seria “um contrassenso o Estado brasileiro, agora, exigir provas documentais quanto a uma perseguição política que ele mesmo promoveu e da qual jamais permitiu que fosse produzido ou viesse à luz algum documento ou registro oficial”, assinalou o conselheiro José Carlos Moreira da Silva Filho, em relatório técnico do Grupo de Trabalho sobre a Guerrilha do Araguaia da Comissão de Anistia.
O mesmo relatório conclui ainda que os moradores da região foram “compelidos ao afastamento de suas atividades laborais” por causa das perseguições sofridas naquele período. Assim, a Comissão reconheceu oficialmente que o “cidadão teve obstaculizado pelo próprio Estado seu direito ao livre exercício de atividade laborativa, os prejuízos sofridos pelos requerentes hão de ser reparados pelo Estado brasileiro, pois inconteste a perda de vínculo com a atividade laboral”. Com base nesse entendimento, a Comissão arbitrou o pagamento de reparação econômica no valor de dois salários mínimos mensais.
Outro problema encontrado pela Comissão no que tange à anistia é o uso indevido da boa-fé dos requerentes. Para entrar com um processo de anistia na Comissão não é preciso advogado. No entanto, há quem tenha usado da ingenuidade dos camponeses para ganhar dinheiro, exigindo comissões de 10% das indenizações para encaminhar os processos.
Após denúncia a respeito, conselheiros da Comissão de Anistia recorreram ao Ministério Público de Marabá com o objetivo de que o órgão acompanhe o recebimento das indenizações, evitando desvios. “Estamos muito indignados com essa situação porque, afinal de contas, não foi a atuação desse procurador determinante para a apuração dos casos e sim a atuação direta da Comissão que foi à região para poder ouvir e colher as informações necessárias”, disse Paulo Abrão, presidente da Comissão de Anistia. O procurador em questão seria Elmo Sampaio que, ao jornal O Estado de S. Paulo declarou que “o trabalho da Elmo Consultoria é contratar advogados para trabalhar”. Agora, está nas mãos do MP tomar as providências a respeito.

Reparação ao sofrimento

Chegar a São Domingos do Araguaia de Marabá pela Transamazônica é uma experiência desoladora. No caminho, o desmatamento da Amazônia ao longo dos anos fica evidente. Boa parte da área é ocupada por pastos, há poucos trechos de mata e nenhum povoado. Até que desponta, numa entrada à direita, a pequena cidade, um dos símbolos da guerrilha. Uma via de mão dupla – das poucas asfaltadas na cidade – divide dois lados da cidade; à esquerda fica a praça Frei Gil.
Entre os anistiados reunidos na tarde da sessão estava Antônio Alves de Souza, 71 anos, conhecido como Precatão. Ele teve sua história contada em uma das edições do jornal Classe Operária em novembro de 2007.
Na ocasião, disse que, depois de preso pelos militares em 1972, acusado de ajudar a guerrilheira Dina (Dinalva Oliveira Teixeira), sofreu torturas diversas. “Me amarraram pelo pescoço e iam me puxando e depois me prenderam num pé de coco. Fiquei ali das 10 da manhã até às 5 da tarde. Me deixaram em cima de um formigueiro, eu era picado, e de vez em quando vinham me dar uns tapas”.
Depois, levaram Precatão para dentro da base e retomaram a tortura porque queriam saber onde estavam os guerrilheiros. “Começaram a me bater de novo, a me dar choque e a me afogar na água. Resolveram usar a ‘coroa de Cristo’ em mim e apertavam minha cabeça. Parecia que ela ia estourar”. Hoje, apesar do tempo, diz que ainda sente dores no peito e na cabeça. Mas, feliz com a anistia, disse que agora vai poder “realizar o sonho de ter a minha casa”. Ele quer voltar para sua terra, Grajaú, no Maranhão, e finalmente se aposentar do trabalho braçal de fez por toda a vida.
Já seu João Teodoro da Costa, 70 anos, contou à Comissão que vivia na localidade conhecida como Saranzal quando, em 1972, o Exército o obrigou a abandonar sua terra, juntamente com sua família. Sua casa e plantações foram destruídas e ele disse ter sido preso em Palestina e torturado por alimentar os “paulistas”. “Fiquei tão injuriado com aquilo, moça...porque, de repente, perdi o pouco que tinha”, contou com sua voz já apequenada pela idade. Com esforço, lembrou também de Oswaldo Orlando da Costa, o Oswaldão. “Ele era meu amigo, muito querido aqui”.
Dona Marculina Gregória Santos disse ter perdido seu marido, José Nazário, como era conhecido. Falecido em 1987, foi torturado e, como resultado, ficou “todo quebrado, quase cego e quase louco”, conta a viúva. Além disso, “perdemos a pequena venda que tínhamos”. Para sustentar seu único filho e o marido logo após sua libertação, Dona Marculina foi trabalhar como merendeira. “Mas mulher, agora eu tô é feliz!”, festejou com lágrimas nos olhos.

Frustração e arrependimento

Seu Valdemar Cruz Moura, por sua vez, teve seu pedido negado segundo a Comissão por “ausência de pressuposto processual” por não conseguir provar ser filho de Joaquim de Souza Moura, o Joaquinzão, que teria sido preso e que até hoje se encontra desaparecido. “Ele foi morto em Xambioá pelos militares”, garante. “Tínhamos plantações e ajudávamos os paulistas. E eles nos ajudavam com remédio. No começo até pensamos que era gente do governo”, recorda-se. Agora, lamenta, “não tenho nada, venho aqui hoje porque não tenho nada. Sofro de lepra e tenho dificuldade de arrumar trabalho. Fiquei muito frustrado”, explicou durante a sessão do dia 19, quando a Comissão foi ouvir, na chácara da paróquia de São Domingos, os outros camponeses não julgados. Para os casos indeferidos, ainda cabe recurso.
Raimundo Nonato dos Santos, conhecido como Peixinho, 72, teve seu pedido retirado de pauta e também foi ouvido nessa terceira audiência. O apelido vem do seu trabalho, quando fazia transporte pelos rios Araguaia e Tocantins. Por seu conhecimento sobre a região, diz ter sido obrigado a servir de guia para os militares. Quando foi pego pelo Exército, sua mulher tinha acabado de dar à luz. “Bateram muito em mim, mas a ordem era me fuzilar porque achavam que eu era guerrilheiro. Então, com medo, comecei a ir para a mata com eles porque não tive escolha”. Ele relatou ter ajudado a achar Duda (Luiz René Silveira e Silva) e Edinho (Hélio Luiz Navarro). “Edinho foi baleado na mata e levado para a Bacaba, mas não sei o que aconteceu. O que sei é que depois que eles (militares) pegavam alguém, ninguém mais via”. O camponês conta ter visto ainda o corpo de Sônia três dias depois de sua morte “num açaizal na Beira da Água Branca, em São Domingos”.
Peixinho diz nunca ter recebido nada em troca e ter se arrependido por ter servido de guia. “Se eu pudesse voltar no tempo, não teria feito nada disso. Sempre fui amigo do povo da mata e hoje entendo o que fizeram e admiro a todos”.

Guerrilha viva

Dona Adalgisa Moraes da Silva, 78, e seu marido, Frederico Lopes, foram anistiados nesta primeira sessão de julgamentos. Seu Frederico teve sua história contada pelo Vermelho em 2007, quando da primeira audiência pública. Sofreu torturas bárbaras e hoje tem sequelas físicas e psicológicas.
“Ô, minha filha, há quanto tempo!”, disse Adalgisa abraçando a repórter que a conhecera na primeira audiência. Emocionada, lembrou de Rosa (Maria Célia Correia), João Araguaia (Demerval da Silva Pereira), Duda, mas especialmente de Sônia (Lucia Maria de Souza). “Ela fez o parto de minha filha mais nova e virou sua madrinha”, recorda. “Chorei muito quando soube de sua morte, mas a gente nem podia chorar na frente dos militares”, colocou. O dia em que invadiram sua casa é uma de suas piores lembranças. “Aqueles homens entrando em casa, querendo saber de meu marido, gritando, cheios de armas. Eu não consegui me aguentar”, disse constrangida, lembrando da incontinência intestinal momentânea que o pavor lhe trouxe. “Eles diziam 'cala boca ou te rasgo a bala'”.
Daquela época, sobrou para dona Adalgisa principalmente a tristeza trazida pelas atrocidades dos militares. Mas, sua admiração pelos comunistas fez com que em 1993 aderisse de vez ao PCdoB, formalizando sua filiação. “Os guerrilheiros nos explicavam que a gente podia sim mudar de vida e hoje voto no partido porque sei que é assim que a gente muda as coisas”. Sua filha, Valderice Moraes da Silva, 37, afilhada de Sônia, diz que “a guerrilha foi ruim porque no final eles morreram”. “E para nós, só ficou a saudade”, completou a mãe. “Eu acredito na transformação social pela política, então, participo das reuniões e vejo que ali todos têm essa mesma vontade”, colocou Valderice.
Na avaliação de Renato Rabelo, presidente do PCdoB, “para o povo não vale o discurso, mas a ação e a nossa foi libertária. A valorização do Partido pela população do Araguaia, num momento como o atual, de relativo descrédito na política, mostra a seriedade e o compromisso do PCdoB na luta por uma sociedade mais justa”. Para ele, o fato de o Estado estar se retratando “demonstra o amadurecimento de nossa democracia; afinal, somente um governo democrático e popular viria, através de seu ministro da Justiça, a uma região tão sofrida pedir esse perdão”.
A conselheira Ana Guedes, também do PCdoB e uma das mais recentes integrantes da Comissão, “o Araguaia é muito presente em minha vida porque convivi com aquela geração, com Dinaelza (Santana Coqueiro, a Mariadina), Vandick (Reidner Coqueiro, o João), Demerval”. Segundo Ana, “a democracia só foi alcançada no país graças à luta de milhões de brasileiros, e entre eles, aqueles que estiveram no Araguaia. E o mais interessante é que o partido está presente na região”. Segundo dados da direção do PCdoB em Marabá, o partido está estruturado na região e tem cerca de 200 membros ativos nas cidades de São Geraldo, São Domingos, Palestina e São João do Araguaia.
Zezinho do Araguaia, um dos sobreviventes da guerrilha, diz que “este é um êxito preliminar, mas muito importante porque percorremos um longo caminho até chegar aqui. Trabalhamos muito para que os camponeses não fossem esquecidos. E, quando ouvi Tarso Genro se desculpando com meu povo simples, gente da terra, eu falei 'aguenta, coração!”. Segundo Zezinho, “a anistia aos camponeses é uma lição deixada para as gerações futuras. É parte do que de fato é e foi o nosso Brasil”.

Vem Nobel por aí?

Lula recebe prêmio por incentivo à paz, combate à pobreza e proteção das minorias

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, receberá no dia 7 de julho na sede da Unesco, em Paris, o Prêmio Incentivo da Paz, Félix Houphouët-Boigny.

O prêmio concedido ao presidente brasileiro é um reconhecimento por "seu trabalho em prol da paz, o diálogo, a democracia, a justiça social e a igualdade de direitos, assim como por sua inestimável contribuição para a erradicação da pobreza e a proteção dos direitos das minorias", informa um comunicado da Unesco.

O prêmio, que leva o nome do ex-deputado marfinense na França e depois presidente da Costa do Marfim, foi criado em 1989 e é concedido todos os anos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.

Tem por objetivo prestar homenagem às pessoas, instituições e organismos que contribuíram significativamente para incentivar, buscar, salvaguardar ou manter a paz, tendo presentes os princípios da Carta das Nações Unidas e a Constituição da Unesco.

Entre os que já receberam este prêmio figuram Nelson Mandela e Frederik W. De Klerk; Yitzhak Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat; o Rei da Espanha, Juan Carlos 1º, e o ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter; o Presidente do Senegal, Abdoulaye Wade; e o ex-presidente da Finlândia, Martti Ahtisaari.

Alguns dos premiados com o Houphouët-Boigny receberam depois o Prêmio Nobel da Paz.

Cariri que eu amo e a geometria ideológica.

Embarcando hoje nas primeiras horas para o Cariri os deputados federais Sergio Novaes PSB, Eudes Xavier-PT, Raimundo Gomes de Matos-PSDB. Seguiam também para progressista região cearense o senhor Papito Oliveira superintendente da Delegacia Regional do Trabalho (PDT), Antonio Carlos Secretário Geral do PT-Ceará, isso sem falar no pessoal da região, o deputado federal Manuel Salviano – PSDB e os estaduais Vásquez Landim-PSDB e Sineval Roque-PSB. O cafezinho tradicional antes do embarque se transformou em uma verdadeira ágora. O bate papo foi cordial e agradável, porém cada qual em seu quadrado.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Protestos contra Gilmar Mendes

Manifestantes em 3 capitais exigem renúncia de Gilmar Mendes
Ao som de roda de capoeira, quadrilha de São João e um apitaço, cerca de 300 manifestantes exigiram nesta quarta (24) à noite, na Praça dos Três Poderes em Brasília, a renúncia do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. O ato, promovido pelo Movimento Sai às Ruas, aconteceu simultaneamente em São Paulo e Belo Horizonte. Ao contrário do primeiro protesto, em maio passado, quando se encontrava no prédio do STF, Mendes deixou o local antes da manifestação. Segundo a assessoria de imprensa da Corte, ele foi dar aulas e antecipou que não comentaria o assunto.
Manifestantes com máscaras de Mendes e Dantas
Uma guarnição da Polícia Militar do Distrito Federal (DF) manteve os manifestantes a uma distância de 100 metros do prédio do STF. Milhares de velas foram acessas por toda a Praça dos Três Poderes. Os manifestantes gritavam palavras de ordem como “Fora Gilmar” e “Gilmar banqueiro! O Dantas é que paga seu dinheiro.”

Convidado para o evento, o mestre Aranha comandava uma roda de capoeira e disse que prestava apoio incondicional aos manifestantes. No local, também havia uma banca de camelô que vendia produtos delituosos como sentenças e “habeas bolsos”. Foram distribuídos apitos para os presentes.

Na quadrilha de São João, com direito a uma fogueira artificial, manifestantes colocaram máscaras de Gilmar Mendes e Daniel Dantas para encenar o casamento entre eles. Como padrinhos, outros interpretaram o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mais dois personagem caracterizados de executivo de multinacional e latifundiário foram testemunhas.

“Acho que ele (Mendes) está exagerando e a sociedade tem que demonstra sua insatisfação para que ele mude seu comportamento”, disse o curitibano Carlos Vale, que estava em Brasília e resolveu prestigiar o movimento.

Contra o conservadorismo

“Estamos aqui por causa das suas posições conservadoras, ele criminaliza os movimentos sociais e, além do que, soltou um dos maiores criminosos do Brasil por duas vezes seguidas, o Daniel Dantas. Então, isto é um acinte contra o povo brasileiro. Portanto, exigimos a renuncia dele”, disse um dos articuladores do movimento, Marcus Woortmann, cientista político e funcionário do Ministério do Trabalho.

José Teixeira, do Grito dos Excluídos, explicou que o movimento reunia na sua articulação entre 20 a 30 pessoas que não recebia apoio de nenhum partido ou entidade. Ele acredita que com o crescimento do Movimento Sai às Ruas a tendência é que haja maior participação. “Começamos aqui em Brasília, mas outros grupos já estão se organizando como em São Paulo e Belo Horizonte”, disse.

Para o presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal, Romário Schettino, Gilmar Mendes provocou a união do movimento ao votar pelo fim da exigência do diploma de jornalistas para o exercício da profissão. “O voto dele foi infeliz e preconceituoso. Então nós estamos fechados nessa questão e devemos ficar na rua até que ele sai do STF. Já que não podemos demiti-lo acho que a pressão popular fará com que ele desista de ser ministro”, afirmou.

De Brasília,
Iram Alfaia

quarta-feira, 24 de junho de 2009

No caminho das vitórias. Fortaleza vence mais uma.

O Leão emplaca mais uma vitória, parabéns. Espero que alguns colegas da crônica não estejam já considerando o melhor time do mundo. Exageros rotineiros da nossa classe. Falo o mesmo do Ceará que também se recupera. Se não citar os dois com suas mazelas e virtudes o comentarista pode ser amaldiçoado pelo imediatismo que é alimentado infelizmente por companheiros da crônica que pensam está ajudando nosso pebol “colocando pirulito na boca do torcedor”.

Samuel Rosa e Ira. Tarde vazia.